Archive | dezembro 2013

Encontros – primeira parte

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Ele apenas perambulava pelas ruas no centro da cidade. Na verdade, de tão atordoado, nem mesmo sabia estar no Centro. Havia perdido completamente a noção do tempo e de direção. Sua alma estava em absoluto desespero e sua mente, em parafuso. Centenas de pensamentos bombardeavam a mente confusa, todos ao mesmo tempo e sem dar trégua. Angústia, tristeza profunda e questionamentos mil faziam as lágrimas molharem seu rosto, de forma incessante.

Que fazer? Continuar andando? Parar e beber até esquecer, até cair? Morrer, simplesmente? Ou voltar para casa e tentar seguir em frente? Ele já havia feito isso antes e, no fundo, bem lá no fundo do coração, ele sabia que poderia fazê-lo de novo. Mas estava tão cansado…

A vida não havia sido nada fácil para ele. Tinha lutado muito para conseguir tornar-se alguém e chegar aonde chegou. Mas agora, apesar de saber ser capaz, não conseguia encontrar motivação alguma, nem mesmo razão para tentar de novo.

Seu nome é Jairo, mas ele nunca teve certeza se era esse mesmo o seu nome, então preferia ser chamado de Wellington, seu nome do meio.

Ele fora abandonado pela mãe, não tinha irmãos, e crescera numa casa lar para crianças sem nunca ter conhecido o pai. Jairo Wellington foi o nome que disseram ter recebido em homenagem aos dois policiais que o encontraram na rua, numa noite chuvosa quando o levaram ao hospital, para depois ser encaminhado para o orfanato.

O período escolar tinha sido muito, muito difícil. Como não era de uma beleza adequada aos padrões tidos por normais, sempre sofreu zombarias entre as demais crianças e nunca fez amigos. No orfanato, diziam que ele era feio demais para que alguém se interessasse em adotá-lo e que era impossível amar alguém como ele.

A revolta tomou conta de seus sentimentos muito cedo e não tardou para que a violência aflorasse. Na adolescência, decidiu que não zombariam mais dele sem sofrerem as consequências, o que lhe rendeu algumas passagens pela polícia por agressões.

Decidiu que seria alguém nessa vida e teve de esforçar-se muito para concluir o Ensino Médio, estudando no período noturno e engraxando sapatos numa rodoviária durante o dia. Ali mesmo, descobriu o lado negro da vida.

Além de golpes, roubos, violência e trapaças que via todos os dias, Wellington conheceu políticos, gente rica e bem posicionada na sociedade, atletas, jornalistas e artistas. Frequentou festas e bares, casas noturnas e recepções em mansões sempre a convite de alguém cujos sapatos engraxara e de quem ganhara a simpatia.

Nestas oportunidades, conheceu a falsidade, a futilidade, as banalidades e extravagâncias, a drogas, o álcool, o sexo e as mentiras, roubos e outras tantas coisas que o mundo e as trevas sempre oferecem.

Além de amargurado e agressivo, também se tornou frio, desconfiado e oportunista. A vida estava em decadência, mas ele não percebia.

Em meio a tantas das noitadas de festas, bebedeira e drogas, não conseguia pagar o aluguel de um quarto numa pequena pensão familiar, e logo foi despejado e passou a morar na rua.

Wellington não tinha mais nada. Nas ruas, até sua caixa de engraxate foi roubada, e agora sustentar o vício só era possível por meio de furtos e roubos. Sua agressividade rendeu-lhe a fama de mau e o apelido de “sangue ruim”. Ele se tornou um homem mau e completamente infeliz, sem amigos e sem perspectiva de futuro. Até que um dia…

 Dawidh Alves