Archive | janeiro 2014

Encontros – segunda parte

Image

Num dia frio, como muitos outros que já havia vencido, Wellington seria surpreendido por um encontro inesperado.

Procurava se aquecer sob a marquise de uma loja no centro da cidade, onde sempre se abrigava, sem nunca notar o nome na fachada do prédio. Lutava para vencer a fome e o desejo desesperador por mais uma dose de álcool ou crack. Com o estômago doendo de fome, naquele início da madrugada, ouviu uma voz.

– E aí, meu irmão? Com frio? Com fome?

Assustado e quase sem poder enxergar na escuridão, ele respondeu pondo-se em pé num salto.

– Quem é você? Qué o quê aqui, mané?

– Só vim ajudar, amigo. Só vim ajudar!

Wellington quase não podia acreditar. Ninguém se aproximava do “seu lugar”. Todos tinham medo dele porque sabiam que era agressivo e violento. E agora, no meio da noite, no meio do nada, a voz que ele ouvia parecia tão cheia de paz. E aqueles olhos que o fitavam em meio à escuridão estavam carregados de amor. Apesar de ele não conhecer muito bem esses sentimentos, sempre procurou por eles. E agora eles estavam diante dele e direcionados a ele. Além disso, dos olhos amorosos e da voz que irradiava paz, o adolescente diante de Wellington tinha nos lábios um sorriso tão sincero, que ele pensava ser impossível reproduzir.

“Só pode ser mentira! Isso deve ser brincadeira”, pensou.

– Quer comer alguma coisa? – Insistiu o garoto.

– Cê tá me tirânu? – Wellington respondeu com agressividade.

– Como assim? Só estou te oferecendo comida e cobertor.

O rapazinho insistia em sorrir e olhar para os olhos de Wellington como ninguém tinha feito até então.

Wellington deu uma olhada no garoto, de cima a baixo, desconfiado e confuso. Conferiu, então, não mais o rosto angelical à sua frente, mas as roupas, o tênis do menino que lhe oferecia ajuda. Em seguida, num movimento rápido, agarrou o garoto pelas pontas de sua blusa na altura do pescoço, empurrou-o com força contra a parede, fazendo com que o menino derrubasse a marmita de comida de suas mãos e começou a gritar.

– Tá de onda comigo, né, “muléque”? Tá de onda comigo, né? Todo arrumadinho, “ropinha” limpinha, “pisante” novinho no pé, perfumadinho e cabelinho da hora! O filhinho de papai pensa que pode vir aqui e tirar onda de bonzinho pra cima de mim, né? Num é?

O adolescente, prensado contra a parede, agora tinha um semblante diferente. Assustado, com os olhos arregalados. O medo provocava arrepios pelo corpo e frio na espinha, gerando um gigantesco nó na garganta que o deixou sem fala, sem ação.

– Fala, “muléque”… Perdeu a voz, almofadinha? – esbravejava Wellington, já com uma das mão com punho fechado e ameaçando bater no rosto do garoto.

– Vou “quebrá” tua cara pra tu “vê” que a vida na rua é dura, e que nenhum filhinho de papai pode vir aqui pra mi “humillhá”, não!

Wellington gritou ao levantar a mão preparada para o primeiro soco, enquanto olhou para o rosto do menino apavorado e indefeso. E aí, viu que as lágrimas lhe desciam pela face terna e doce. Isso o paralisou.

Jairo Wellington já havia se envolvido em tantas brigas, que perdera as contas. Mas nunca, nunca tinha visto nos olhos de seus oponentes lágrimas tão inocentes. Não sabia o que fazer. Ele tinha que provar superioridade e mostrar quem é que mandava no pedaço. Seu orgulho estava ferido sem um motivo que pudesse ser explicado, a ira o dominava como sempre, a revolta estava aflorada como de costume. Mas aquelas lágrimas eram inocentes de verdade, e mesmo sendo abundantes, não apagavam o amor que os olhos do menino irradiavam em meio à escuridão.

Mil pensamentos passavam pela mente de Wellington, e ele não sabia qual a coisa certa a fazer.

“E se esse almofadinha não merecer apanhar? Mas, se eu não bater nele, vai pensar que sou um fraco, e que ele é mesmo melhor que eu! Mas se eu matar um filhinho de papai desses, posso me dar mau de verdade! Por que ele não diz nada? Será que não vai gritar? Vou deixar ele ir embora. Pelo menos está com medo e não volta mais aqui!” Pensava tudo isso em questão de segundos.

– “Cê” não vai “fala” nada, não, “muléque”? Só sabe chorar? – perguntou, tentando dar uma chance ao garoto. Mas ele jamais poderia imaginar a resposta que viria a seguir.

 Dawidh Alves